Praticamente todo argumento a favor da existência do Estado começa no mesmo lugar: sem uma autoridade final capaz de impor regras e usar força para fazê-las valer, a convivência humana desaba em conflito. É um argumento antigo, repetido em salas de aula e em debates de bar com a mesma confiança. E é também, quando examinado de perto, um argumento que nunca completa o próprio raciocínio.
Ele para exatamente no ponto em que deveria começar a ficar interessante: se o problema é que seres humanos, deixados sem controle, abusam do poder que têm sobre os outros, por que a solução proposta é dar a um grupo específico de seres humanos o monopólio legal desse mesmo poder — e blindá-lo de qualquer concorrência?
A pergunta que ninguém faz
A tradição política dominante resolve isso com um truque de vocabulário. Quando um indivíduo comum usa força contra outro para tirar seu dinheiro, chamamos de roubo. Quando a mesma transferência acontece por meio de uma agência que se autodenomina Estado, chamamos de tributação. Quando um particular prende alguém contra a vontade, é sequestro. Quando é feito por um funcionário fardado seguindo um estatuto que o próprio grupo escreveu, é aplicação da lei.
Um monopólio não muda de natureza porque foi votado. Continua sendo um monopólio — só que agora com verniz de legitimidade.
Isso não é um jogo de palavras irrelevante. É o mecanismo central que permite que a mesma ação, avaliada pelos mesmos critérios morais, receba vereditos opostos dependendo de quem a pratica.
O argumento da falha de mercado, invertido
A defesa mais sofisticada do monopólio estatal não nega o problema — argumenta que a alternativa seria pior. Segurança e justiça, dizem, são bens que o mercado não consegue prover de forma confiável. O problema é que esse argumento prova demais: se ausência de concorrência é necessária para resolver problemas de informação e incentivo, o Estado deveria ser o pior candidato possível para o trabalho, não o melhor. Ele não presta contas a um comprador que pode parar de pagar, não enfrenta concorrente que ofereça o mesmo serviço por menos, e se financia por meio compulsório — o que elimina exatamente o mecanismo que, em qualquer outro contexto, obriga um provedor a se corrigir.
A alternativa não é caos
A tradição anarco-capitalista não defende ausência de segurança, arbitragem ou regras — defende que esses serviços sejam prestados por múltiplos provedores em competição, sujeitos à possibilidade real de perder clientes para quem fizer melhor. Ninguém planeja centralmente a distribuição de pão numa cidade grande, e ainda assim o pão chega às padarias todos os dias. A pergunta que fica em aberto é por que segurança e justiça seriam a única exceção.