Milei radicaliza discurso liberal enquanto o Brasil segue na contramão da liberdade econômica

O presidente argentino Javier Milei subiu à tribuna da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 23 de setembro de 2026, e fez um dos discursos mais duros de seu mandato contra a organização. No mesmo mês, o Índice de Liberdade Econômica 2026, da Heritage Foundation, mostrou dois movimentos opostos na região: a Argentina subiu 39 posições e o Brasil caiu 10. Este texto separa o que aconteceu, com fonte, do que é análise do autor.

Salão da Assembleia Geral da ONU
Salão da Assembleia Geral da ONU, em Nova York (foto de arquivo). Foto: Basil D Soufi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0). Imagem ilustrativa.

O que Milei disse na ONU

Segundo a cobertura da Revista Oeste, Milei afirmou que a ONU “se transformou em uma organização inútil que só serve para alimentar uma casta de parasitas arrogantes, disfarçados de burocratas bem-intencionados”. Ele acusou o organismo de não impedir conflitos e terrorismo, questionou a atuação da entidade na disputa pelas ilhas Malvinas e disse que a Argentina “não vai sentar e esperar” que a ONU e a comunidade internacional cumpram seu mandato.

O presidente também declarou alinhamento “sem ambiguidades” com o Ocidente, com os Estados Unidos e com Israel, criticou o que chamou de postura da ONU contra Israel na guerra em Gaza e a permissividade com o regime iraniano, que descreveu como uma “teocracia autoritária”. Sobre a pandemia, classificou recomendações da Organização Mundial da Saúde como um “experimento de controle social global disfarçado de ciência”. Na área de tecnologia, seguiu a linha do presidente americano Donald Trump ao minimizar preocupações com a inteligência artificial, dizendo que os cenários distópicos usados para infundir medo e favorecer o controle do Estado “não fazem sentido do ponto de vista econômico”.

A crítica ao discurso

Não houve unanimidade na cobertura. A CartaCapital descreveu o pronunciamento como um ataque à ONU e afirmou que Milei recorreu a um discurso de negacionismo, comparando o tom ao usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia. O texto lembra que o presidente argentino chamou os confinamentos de “encarceramento forçado” e usou a palavra “genocídio” ao falar das mortes ligadas às políticas de isolamento. A reportagem apresenta as falas de modo crítico, sem trazer dados epidemiológicos que as contestem.

Vale registrar as duas leituras: para os apoiadores, Milei disse verdades que outros governantes evitam dizer em foros multilaterais; para os críticos, o discurso ignora o consenso científico e enfraquece a cooperação internacional. Como se trata de avaliação política e não de fato mensurável, cada leitor chegará à sua conclusão.

Obelisco de Buenos Aires
Obelisco de Buenos Aires (foto de arquivo). Foto: David Berkowitz / Wikimedia Commons (CC BY 2.0). Imagem ilustrativa.

O que o ranking de liberdade econômica mostra

O Índice de Liberdade Econômica de 2026, da Heritage Foundation, avaliou 176 países a partir de 12 componentes, reunidos em quatro grupos: Estado de direito, tamanho do governo, eficiência regulatória e abertura de mercado. Os números de Brasil e Argentina, segundo o levantamento divulgado pela imprensa brasileira, são os seguintes:

  • Brasil: 134º lugar, com 52,4 pontos. Em 2024 estava em 124º, com 53,2 pontos, uma queda de 10 posições. Entre 32 economias das Américas, ocupa o 28º lugar. O país é classificado como “majoritariamente não livre”.
  • Argentina: 106º lugar, com 57,4 pontos. Em 2024 estava em 145º, com 49,9 pontos. O salto de 39 posições e de 7,5 pontos foi o maior avanço entre os países avaliados nesta edição.
  • Chile: lidera a América Latina, na 17ª posição global.

Entre os fatores que pesam contra o Brasil, o relatório aponta direitos de propriedade, integridade governamental e ambiente regulatório, além da forte presença do Estado na economia e da burocracia para abrir e operar negócios.

Uma ressalva importante sobre os números

Os dois países seguem na mesma faixa de classificação da Heritage, a de economias “majoritariamente não livres”, que vai de 50 a 59,9 pontos. A diferença é a trajetória: a Argentina saiu de uma pontuação abaixo de 50, que a colocava na pior faixa, para o meio da tabela, enquanto o Brasil perdeu pontos. Um índice como esse é uma fotografia metodológica, que depende dos critérios escolhidos pela instituição, e não dá a última palavra sobre o bem-estar da população.

No caso argentino, os ganhos de liberdade econômica convivem com custos reais. Em outro texto deste site, mostramos que a queda da inflação foi acompanhada do fechamento de dezenas de milhares de empresas, um dado que qualquer análise honesta do modelo precisa colocar na mesma balança. Ver a matéria Milei derruba a inflação, mas 31 mil empresas fecharam.

Análise: por que o contraste importa

Esta seção é opinião do autor. O contraste entre os dois países é o mais útil da semana. Sem entrar no mérito de cada frase de Milei, que o leitor pode aprovar ou rejeitar, os dados do ranking mostram que um governo que reduz gastos, desregula e defende a propriedade privada tende a subir nos índices de liberdade econômica, enquanto um Estado que cresce, arrecada mais e regula mais tende a cair. Esse é o argumento central de quem defende menos intervenção.

Ainda assim, é preciso separar o discurso da entrega. Um pronunciamento duro contra a ONU rende manchete, mas não mede reformas. O que sustenta a tese liberal é a mudança em regras de mercado, em gasto público e em segurança jurídica. Para o Brasil, a lição prática é que a queda de 10 posições tem causas concretas listadas pelo próprio relatório, como insegurança jurídica, peso do Estado e burocracia, e que elas podem ser enfrentadas por reformas, sem depender de bravatas.

Também vale a cautela oposta: quem usa o ranking como propaganda deve lembrar que a Argentina ainda tem muito caminho pela frente e que o custo social das mudanças é parte do debate. Uma posição intelectualmente sólida defende a liberdade econômica e admite os limites e os custos da transição.

Como o índice é calculado

Para quem não conhece o ranking, vale explicar o básico. A Heritage Foundation é um centro de estudos americano de orientação conservadora, o que o leitor deve ter em mente ao avaliar o levantamento. Cada país recebe nota de 0 a 100 em cada um dos 12 componentes, e a média forma a pontuação final. Os componentes vão de direitos de propriedade e eficácia da Justiça a carga tributária, gasto público, liberdade empresarial, liberdade de comércio e liberdade financeira. Como qualquer índice, ele traduz escolhas metodológicas em números, e por isso é útil como termômetro de tendência, mais do que como sentença definitiva sobre a qualidade de vida em cada país.

O que observar nos próximos meses

Alguns pontos merecem acompanhamento. O primeiro é se a Argentina mantém a trajetória de alta nos próximos relatórios, o que dependerá da continuidade das reformas e do comportamento da atividade econômica. O segundo é como o Brasil responde à queda, com eventuais medidas de simplificação regulatória e de segurança jurídica. O terceiro é a repercussão diplomática do discurso na ONU, já que Milei reforçou seu alinhamento com Estados Unidos e Israel e pode ter de lidar com reações de outros governos.

Perguntas frequentes

O que Milei disse na ONU em 23 de setembro de 2026? Chamou a ONU de “organização inútil”, criticou sua atuação em conflitos, na questão das Malvinas e em Gaza, declarou alinhamento com EUA e Israel e criticou recomendações da OMS durante a pandemia.

Qual a posição do Brasil no Índice de Liberdade Econômica 2026? 134º entre 176 países, com 52,4 pontos, uma queda de 10 posições em relação a 2024.

Quanto a Argentina subiu no ranking? 39 posições, do 145º para o 106º lugar, com 57,4 pontos, o maior avanço da edição.

Quem publica o Índice de Liberdade Econômica? A Heritage Foundation, think tank americano, que avalia 176 países em 12 componentes.

Fontes: Revista Oeste e CartaCapital (discurso de 23/09/2026); ACM Notícias, Poder360 e Gazeta Brasil (Índice de Liberdade Econômica 2026, Heritage Foundation). Trechos de opinião estão identificados.

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