Rothbard e a Nova Esquerda: um encontro histórico inesperado

Nos anos 1960, num período em que a política americana se polarizava cada vez mais em torno da Guerra do Vietnã, do serviço militar obrigatório e do crescimento do aparato de segurança nacional, um episódio pouco conhecido fora de círculos especializados aconteceu: Murray Rothbard, economista libertário formado na tradição austríaca e defensor do capitalismo de livre mercado mais radical de sua geração, passou a buscar aliança tática com setores da Nova Esquerda americana — o movimento estudantil e contracultural que, ao mesmo tempo, defendia posições que iam do anti-imperialismo ao socialismo revolucionário. Entender esse episódio exige abandonar a expectativa de que o espectro político é uma linha reta única do “esquerda” ao “direita”.

Retrato histórico associado ao pensamento libertário radical
Murray Rothbard, um dos principais teóricos do libertarianismo radical americano, defendeu nos anos 1960 uma aproximação tática com setores da Nova Esquerda contrários à guerra e ao poder do Estado.

O que unia, na prática, libertários e a Nova Esquerda

A aproximação não era sobre economia — nesse ponto, Rothbard e a esquerda socialista continuavam profundamente divergentes. Era sobre um conjunto específico de posições em relação ao poder do Estado que, na época, colocava libertários radicais e ativistas de esquerda antiautoritária do mesmo lado de debates concretos: oposição à Guerra do Vietnã e ao alistamento militar obrigatório, crítica ao crescimento do complexo industrial-militar, oposição à vigilância estatal doméstica sobre dissidentes políticos, e ceticismo compartilhado em relação ao poder concentrado tanto de grandes corporações que se beneficiavam de contratos e proteção estatal quanto do próprio aparato governamental que distribuía esses benefícios.

Rothbard cunhou, nesse período, uma distinção que se tornaria central em sua análise posterior: a diferença entre “capitalismo de livre mercado” — baseado em troca voluntária, concorrência aberta e ausência de privilégio legal — e o que ele chamava de “capitalismo de compadrio” ou “capitalismo de Estado” — empresas que prosperam não por competir eficientemente, mas por capturar contratos governamentais, subsídios, barreiras regulatórias que bloqueiam concorrentes menores, e proteção contra os riscos normais de mercado. Para Rothbard, boa parte da crítica que a Nova Esquerda dirigia ao “capitalismo” americano da época era, na realidade, uma crítica válida ao capitalismo de compadrio — e não ao mercado livre genuíno, que ele argumentava nunca ter sido plenamente implementado nos Estados Unidos.

A revista Left and Right e os interlocutores da época

Entre 1965 e 1968, Rothbard editou uma publicação chamada “Left and Right: A Journal of Libertarian Thought”, cujo próprio título sinalizava o projeto: buscar pontos de contato entre libertarianismo radical e correntes da esquerda antiautoritária, contra o que ele via como um consenso de centro bipartidário — tanto democratas quanto republicanos da época apoiando, em graus variados, a guerra e a expansão do Estado de bem-estar combinado com o Estado de segurança nacional. Rothbard também colaborou, nesse período, com intelectuais associados à Nova Esquerda em publicações e debates, buscando construir o que chamou de “aliança libertária-esquerda” contra o que via como o verdadeiro eixo de poder: uma classe política e empresarial entrelaçada que se beneficiava tanto de gastos militares quanto de regulação favorável a grandes conglomerados.

Rothbard argumentava que o verdadeiro conflito político não era entre esquerda e direita no sentido convencional, mas entre quem se beneficiava do poder estatal concentrado — fosse por contrato militar, fosse por subsídio — e quem arcava com os custos dessa concentração, uma divisão que atravessava o espectro partidário tradicional.

Protesto contra a Guerra do Vietnã nos anos 1960
A oposição à Guerra do Vietnã e ao alistamento obrigatório foi o ponto de convergência mais concreto entre Rothbard e setores da Nova Esquerda americana durante os anos 1960.

Por que a aliança não durou

A aproximação tática, no entanto, não se sustentou por muito tempo. As divergências de fundo entre libertarianismo de mercado e socialismo — sobre propriedade privada dos meios de produção, sobre a própria legitimidade da economia de mercado como mecanismo de coordenação, e sobre o papel do Estado numa sociedade pós-capitalista — eram profundas demais para sustentar uma coalizão duradoura além de pautas pontuais específicas, como a oposição à guerra. À medida que a década de 1960 avançava e setores da Nova Esquerda radicalizaram-se em direção a posições mais explicitamente marxistas ou maoístas, e à medida que o movimento libertário americano se organizava mais claramente em torno de instituições próprias — incluindo o que depois se tornaria o Partido Libertário, fundado em 1971 —, o espaço de convergência tática se estreitou até praticamente desaparecer.

Rothbard, em textos posteriores, reconheceu que a aposta na aliança com a Nova Esquerda havia sido, em boa medida, malsucedida como estratégia de longo prazo, e voltou sua atenção, nas décadas seguintes, para construir alianças alternativas dentro do espectro conservador americano, buscando pontos de contato com setores populistas e conservadores tradicionalistas — uma guinada que gerou, por sua vez, controvérsia dentro do próprio movimento libertário, com críticos acusando essa nova fase de sua obra de flertar com posições incompatíveis com os princípios liberais clássicos que ele defendera anteriormente.

O que esse episódio revela sobre a geometria política

Esse capítulo pouco lembrado da biografia intelectual de Rothbard é útil, hoje, como lembrete de que o eixo esquerda-direita convencional nem sempre captura as divisões mais relevantes de um debate político específico. Em questões como vigilância estatal, gastos militares, subsídios a grandes corporações e proteção regulatória contra concorrência, é possível encontrar pontos de convergência entre críticos do Estado vindos de tradições intelectuais muito diferentes — mesmo quando esses mesmos grupos divergem radicalmente sobre propriedade privada, distribuição de renda ou o papel do mercado na organização econômica de conjunto.

Isso não significa que as diferenças de fundo entre libertarianismo de mercado e tradições socialistas sejam menores do que parecem — continuam sendo, em muitos pontos, incompatíveis. Mas significa que reduzir todo o espectro de posições políticas a uma única linha, do “mais Estado” ao “menos Estado” na mesma direção sempre, obscurece episódios como esse, em que atores de tradições opostas se encontraram, ainda que temporariamente, num mesmo lado de uma questão concreta — porque a pergunta relevante, naquele momento específico, não era sobre a organização ideal da economia no longo prazo, mas sobre quem estava sendo enviado para morrer numa guerra distante e quem lucrava com isso.

Vale notar também que essa episódio antecede, mas prenuncia, debates que reapareceriam décadas depois em outros contextos — sempre que uma pauta específica, como oposição a uma guerra, crítica a resgates financeiros de grandes empresas, ou desconfiança de vigilância estatal em massa, encontra apoio simultâneo em setores que se autodenominam de esquerda e de direita, sem que isso signifique convergência de fundo sobre os princípios mais amplos que organizam a visão de mundo de cada grupo. Reconhecer esse padrão ajuda a interpretar com mais precisão coalizões políticas aparentemente estranhas que surgem, de tempos em tempos, em torno de pautas pontuais — sem cair no erro de tratá-las como sinal de convergência ideológica mais ampla entre tradições que, na maioria dos outros temas, permanecem tão distantes quanto sempre estiveram, e que provavelmente continuarão divergindo sobre praticamente tudo o mais.

Manifestação estudantil de 1968
O ano de 1968 marcou o auge da mobilização estudantil e contracultural nos Estados Unidos — um contexto em que alianças táticas incomuns, como a buscada por Rothbard, se tornaram temporariamente possíveis.

Karl Hess e outros trânsitos incomuns

Rothbard não foi o único personagem a atravessar essa fronteira pouco convencional entre libertarianismo de mercado e a esquerda antiautoritária dos anos 1960. Karl Hess, que havia sido redator de discursos do senador conservador Barry Goldwater na campanha presidencial de 1964 — um dos momentos de maior visibilidade do conservadorismo americano no pós-guerra —, passou nos anos seguintes por uma transformação pessoal notável, aproximando-se de posições cada vez mais próximas do anarquismo, chegando a colaborar com publicações e ativistas de esquerda em torno de pautas como autogestão comunitária, oposição à guerra e crítica ao poder corporativo entrelaçado ao Estado, sem nunca abandonar completamente sua desconfiança fundamental em relação à centralização estatal que caracterizava sua fase conservadora anterior.

A trajetória de Hess, assim como a de Rothbard no mesmo período, ilustra que a divisão política binária entre “esquerda” e “direita”, tal como consolidada no debate partidário americano da época, escondia um eixo alternativo de análise — centrado na questão de poder concentrado versus poder disperso, autoridade centralizada versus autonomia local — que atravessava e embaralhava as duas categorias convencionais. Esses trânsitos individuais eram raros e não representaram nunca a posição majoritária de nenhum dos dois campos, mas documentam que as fronteiras ideológicas do período eram mais porosas, em certos pontos específicos, do que a narrativa política dominante costuma sugerir em retrospecto.

Uma lição sobre coalizões e princípios

O episódio Rothbard-Nova Esquerda também levanta uma questão que continua relevante para qualquer movimento político organizado em torno de princípios: até que ponto vale a pena formar coalizões táticas com grupos que divergem em fundamentos, mas convergem em pautas específicas e imediatas? A resposta de Rothbard, ao longo de sua vida, oscilou — primeiro apostando na aliança com a esquerda antiautoritária, depois migrando para tentativas de aliança com setores conservadores e populistas em busca da mesma base de apoio contra o poder estatal concentrado. Essa oscilação não invalida o diagnóstico original sobre capitalismo de compadrio e concentração de poder — mas ilustra como a busca por aliados táticos, quando os fundamentos filosóficos divergem profundamente, tende a ser instável e sujeita a rupturas quando as pautas imediatas que uniam as partes deixam de estar no centro do debate público.

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