A economia argentina, que até o ano passado era apresentada por Javier Milei como prova viva do sucesso do choque liberal, começa a mostrar sinais claros de perda de fôlego, segundo reportagem publicada pela Bloomberg nesta quarta-feira (26). Economistas cortaram a projeção de crescimento do país para 2026 de 3,5% — estimativa feita em dezembro — para apenas 2,7%, um recuo que ganha peso político justamente às vésperas da corrida presidencial de 2027, quando Milei tentará a reeleição.
De euforia a estagnação, segundo a Bloomberg
O texto da agência descreve o momento atual da gestão Milei como uma virada “da euforia para a estagnação”. Depois de dois anos vendendo ao mundo a narrativa de que a “motosserra” fiscal havia debelado décadas de desequilíbrios argentinos, o governo agora enfrenta desaceleração da atividade econômica, fraqueza no mercado de trabalho e queda na popularidade — uma combinação que analistas apontam como o principal obstáculo à repetição do mandato.
Uma pesquisa da AtlasIntel realizada em julho colocou a aprovação de Milei em 37,1%, próxima da mínima histórica de sua gestão. A inflação, uma das principais vitrines do governo desde 2023, também voltou a dar sinais de resistência: os preços ao consumidor subiram 2,1% em julho, ante 1,9% em junho, levando a inflação acumulada em 12 meses a 33,8%, ligeiramente acima dos 33,5% do mês anterior.

Números que preocupam: da mineração ao varejo
Os dados mais recentes de atividade mostram um país partido ao meio. Em fevereiro, a economia argentina registrou a maior contração mensal do governo Milei desde 2023, com recuo de 2,6% frente ao mês anterior e queda de 2,1% na comparação anual — a maior retração interanual desde 2024. O contraste setorial ajuda a explicar por que o governo insiste no discurso de recuperação mesmo diante de números negativos: mineração cresceu 9,9% e agropecuária avançou 8,4% na comparação com fevereiro de 2025, puxadas pelo apelo exportador desses setores dentro do modelo econômico de Milei.
Do outro lado, os setores que mais empregam e mais pesam no bolso da população mostraram contração: a indústria de transformação recuou 8,7% e o varejo caiu 7% no mesmo período. O desemprego, que fechou 2025 em 7,5% no último trimestre do ano — alta de 1,1 ponto percentual sobre 2024 —, ficou no quarto maior patamar desde o início da pandemia, um retrocesso que contrasta com o discurso oficial de recuperação plena.
Um economista ouvido pela reportagem resumiu o dilema do governo argentino: “O governo acha que reduzir a inflação sozinha será a chave para a vitória em 2027, mas não tenho certeza de que essa equação seja à prova de falhas. Existem formas de aliviar os setores em dificuldade, mas eles não estão implementando.” A crítica resume a aposta de Milei em concentrar estímulos em setores exportadores — mineração, energia, agropecuária e tecnologia — enquanto varejo e indústria, que juntos representam apenas 12% dos empregos formais mas empregam parcela muito maior da população economicamente ativa em termos absolutos, seguem em dificuldade.
O pano de fundo: crise diplomática com o Brasil
O momento de fragilidade econômica de Milei coincide com um dos piores capítulos recentes na relação entre Argentina e Brasil. No início de agosto, o Itamaraty decidiu rebaixar formalmente a representação diplomática brasileira em Buenos Aires, retirando o embaixador Julio Bitelli do posto e substituindo-o por um encarregado de negócios — cargo hierarquicamente inferior —, em resposta a uma sequência de ataques verbais de Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Os insultos, proferidos por Milei durante a convenção do Partido Liberal (PL) em julho, incluíram termos como “presidiário” e “lixo socialista” para se referir a Lula, além de ataques diretos a Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Em nota, o Itamaraty afirmou não haver “precedentes de um presidente estrangeiro que enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado” de forma tão reiterada, enquanto o governo argentino classificou a medida brasileira como “unilateral” e movida por razões “puramente ideológicas”.

O desgaste diplomático não é trivial para a economia argentina: o Brasil é o principal parceiro comercial do país vizinho, respondendo por 12,6% de todas as exportações argentinas, e foi o terceiro maior destino das exportações brasileiras em 2025, movimentando US$ 18,1 bilhões em vendas. Uma relação bilateral mais fria tende a adicionar mais um fator de incerteza a um cenário econômico que já navega com margem de erro estreita.
O legado de 2025 sob pressão
O ano de 2025 havia sido, até então, a melhor vitrine do governo Milei: o PIB argentino cresceu 4,4% no período, e a queda da inflação — que vinha de patamares de três dígitos ao ano no início da gestão — foi celebrada por investidores locais e internacionais como prova de que o ajuste radical proposto pelo presidente libertário era, de fato, capaz de estabilizar uma das economias mais voláteis da América Latina. Fundos internacionais aumentaram posições em ativos argentinos, e o chamado “trade Milei” virou tema recorrente em relatórios de bancos de investimento ao redor do mundo.
É justamente esse contraste que torna os números de 2026 mais difíceis de digerir para o governo: depois de um ano de resultados fortes o suficiente para alimentar a narrativa de reeleição, a desaceleração atual reacende o temor de que o ajuste fiscal, por mais eficaz que tenha sido no combate à inflação, não tenha resolvido os problemas estruturais que historicamente travam o crescimento argentino — dependência de poucos setores exportadores, mercado interno fraco e um mercado de trabalho que segue sem gerar empregos qualificados em ritmo suficiente.
O que está em jogo para 2027
Para Milei, o desafio agora é duplo: reverter a percepção de estagnação econômica a tempo de reconstruir popularidade antes da disputa presidencial de 2027, e ao mesmo tempo administrar o desgaste diplomático com um dos principais parceiros comerciais da região, criado por sua própria retórica de campanha permanente. A aposta do governo segue sendo a mesma desde 2023: controlar a inflação a qualquer custo, na crença de que estabilidade monetária, por si só, será suficiente para convencer o eleitorado argentino a dar sequência ao projeto liberal-libertário.
Os números divulgados nesta semana, no entanto, sugerem que essa aposta está longe de ser garantida. Com aprovação perto da mínima histórica, desemprego subindo e setores inteiros da economia em contração, o governo Milei entra na reta final antes do ano eleitoral tendo que provar, na prática, que o remédio amargo aplicado à economia argentina desde 2023 ainda vale o sacrifício pedido à população — um teste que só o resultado das urnas em 2027 será capaz de responder definitivamente.
Enquanto isso, o mercado financeiro internacional segue de olho em cada novo dado divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) argentino, buscando sinais de que a desaceleração é passageira ou de que o país entra em uma nova fase de estagnação prolongada. Para investidores que apostaram pesado no chamado “trade Milei” nos últimos dois anos, a resposta a essa pergunta pode determinar se o ciclo de valorização de ativos argentinos continua ou se a euforia inicial já ficou definitivamente para trás.
