Milei derruba a inflação de 289% para 33,5%, mas 31 mil empresas fecharam

O governo de Javier Milei completa mais de dois anos e meio à frente da Argentina com um resultado que poucos economistas ortodoxos previam possível nesse ritmo: a inflação anual, que chegou a bater 289% em abril de 2024, caiu para 33,5% no acumulado de 12 meses até agosto de 2026, segundo dados do instituto oficial de estatística argentino (Indec). A inflação mensal de agosto ficou em 1,7% — um número que, há três anos, seria motivo de comemoração isolada em qualquer mês do governo anterior.

Mas o ajuste teve preço. E é sobre esse preço — e sobre o que ele significa — que vale a pena parar para pensar.

Os números do custo social

Segundo levantamento com base em dados do Indec, desde o início do governo Milei a Argentina perdeu mais de 31 mil empresas e 245 mil empregos formais privados. Olhando especificamente para o setor industrial, a conta chega a cerca de 90 mil postos de trabalho eliminados desde 2024. O desemprego, que já vinha em trajetória de alta, atingiu 7,9% da população economicamente ativa no primeiro semestre de 2026 — 0,3 ponto percentual acima do mesmo período do ano anterior. A informalidade no mercado de trabalho bateu recorde, chegando a 45% dos ocupados nos 31 principais aglomerados urbanos do país.

No campo estritamente macroeconômico, a atividade também sentiu o golpe: o PIB argentino encolheu 0,6% no segundo trimestre de 2026 na comparação com os três meses anteriores, a maior contração mensal do período Milei até agora.

Por que isso acontece — e por que não é surpresa para quem entende de ajuste fiscal

Para quem acompanha teoria econômica austríaca, esse tipo de trade-off não é novidade: reduzir uma hiperinflação de três dígitos por meio de corte de gasto público, fim de emissão monetária para cobrir déficit e abertura da economia a importados gera, no curto prazo, dor real — falência de empresas que só sobreviviam por causa de subsídio, crédito artificialmente barato ou proteção contra concorrência externa. É exatamente esse tipo de empresa “zumbi”, mantida artificialmente viva pela distorção do Estado, que tende a quebrar primeiro quando o dinheiro para de ser impresso sem lastro.

A pergunta que fica — e que qualquer pessoa séria sobre política econômica deveria se fazer, seja liberal, keynesiana ou de qualquer outra escola — não é “há custo?”. Custo sempre há em qualquer mudança estrutural profunda. A pergunta é: o custo de curto prazo do ajuste é menor do que o custo de manter uma inflação de 289% ao ano indefinidamente?

Hiperinflação também destrói empresas, também destrói empregos, também empobrece quem trabalha — só que de forma mais lenta, mais difusa e, para boa parte da população, menos visível no noticiário do que uma demissão em massa de uma vez só. A diferença é que a inflação crônica corrói salário, poupança e capacidade de planejamento de longo prazo de forma silenciosa, enquanto o ajuste fiscal concentra a dor num período mais curto e mais visível.

Nota de 200 pesos argentinos
Nota de 200 pesos argentinos, série vigente. Foto: Casa Rosada / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

O que os críticos apontam

É justo registrar o outro lado do debate, presente nas mesmas reportagens que trazem os números acima: economistas heterodoxos argumentam que o ritmo do ajuste foi rápido demais, sem rede de proteção suficiente para quem perdeu emprego formal e migrou para a informalidade — o que, segundo essa leitura, cria um custo social que pode se converter em instabilidade política antes que os benefícios da estabilização de preços cheguem ao bolso do trabalhador comum.

É um argumento que merece ser levado a sério, não descartado por reflexo ideológico: uma reforma liberal que gera informalidade recorde e desemprego em alta não é, por si só, prova de sucesso — é, na melhor das hipóteses, uma fase de transição cujo resultado final ainda não está escrito.

O teste real ainda está por vir

A avaliação definitiva do experimento Milei não vai ser feita em 2026, nem em qualquer pesquisa de aprovação isolada. Vai ser feita em cinco, dez anos, quando for possível medir se a Argentina conseguiu reconstruir uma base produtiva competitiva sobre os escombros das empresas que dependiam de distorção estatal, ou se o país simplesmente trocou uma forma de empobrecimento (inflação crônica) por outra (desemprego e informalidade), sem consolidar crescimento real e sustentável no longo prazo.

O que já dá para afirmar, com os dados disponíveis até aqui, é que não existe almoço grátis em política econômica — nem para quem defende o Estado grande, nem para quem defende o Estado mínimo. Toda escolha tem custo. A diferença entre as escolas de pensamento está em qual custo cada uma está disposta a pagar, e por quanto tempo.

O que isso tem a ver com o Brasil

O caso argentino interessa ao debate público brasileiro por um motivo simples: o Brasil também convive com déficit fiscal recorrente, carga tributária elevada e um Estado presente em setores onde a iniciativa privada poderia operar com mais eficiência — só que numa escala de gravidade bem menor que a Argentina pré-Milei, o que não torna o problema inexistente, apenas menos urgente em magnitude.

Cada vez que um governo brasileiro discute reforma administrativa, teto de gastos ou redução de subsídios setoriais, o caso argentino é citado — por defensores e por críticos — como exemplo do que pode acontecer nos dois extremos: tanto o risco de adiar o ajuste até virar crise (como a Argentina viveu antes de Milei) quanto o risco de um ajuste rápido demais gerar custo social concentrado e politicamente insustentável (como parte da crítica ao próprio Milei sugere hoje).

Não existe fórmula pronta que sirva igualmente para os dois países — geografia econômica, histórico institucional, tamanho de mercado interno e integração ao comércio internacional são diferentes. Mas o princípio de fundo, de que gasto público descontrolado financiado por emissão monetária tem prazo de validade, é o mesmo em qualquer lugar do mundo onde tenha sido tentado.

Contexto: o que motivou a hiperinflação argentina

Para quem não acompanhou de perto o cenário anterior a Milei: a inflação de 289% ao ano que a Argentina registrava em 2024 foi resultado de décadas de déficit fiscal crônico financiado por emissão monetária do Banco Central, controles de câmbio múltiplos (o chamado “cepo cambiário”), e sucessivos calotes e renegociações de dívida externa que destruíram a credibilidade do peso argentino como reserva de valor. O quadro levou boa parte da população a poupar em dólar informal, alimentando um mercado paralelo de câmbio que, por sua vez, retroalimentava a desconfiança na moeda nacional.

Perguntas frequentes

A inflação argentina realmente caiu esse tanto? Sim, segundo dados oficiais do Indec (instituto de estatística da Argentina): de 289% ao ano em abril de 2024 para 33,5% acumulado em 12 meses até agosto de 2026.

Quantas empresas fecharam no governo Milei? Mais de 31 mil, segundo o mesmo levantamento, com perda de 245 mil empregos formais privados no período.

O desemprego argentino está subindo ou caindo? Subindo: 7,9% da população economicamente ativa no primeiro semestre de 2026, 0,3 ponto percentual acima do mesmo período de 2025.

Isso significa que o plano de Milei fracassou? Não necessariamente — os dados mostram um trade-off real entre controle de inflação e custo social de curto prazo. Se esse trade-off vai compensar no longo prazo é uma pergunta que os dados de hoje ainda não respondem.

Fontes: Indec (instituto de estatística da Argentina), Agência Brasil, Poder360 e Exame, com dados publicados entre 14 e 24 de setembro de 2026.

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